É a partir dessa pergunta (e gerando e respondendo outras tantas), que o livro “Os Blocos do carnaval carioca: o que são, o que dizem que são, o que podem ser e o que não são mais, pois já foram” do jornalista, doutor e mestre em Arte e Cultura Contemporânea (UERJ), Tiago Ribeiro, investiga a trajetória dessa expressão carnavalesca que reúne milhões de foliões em milhares de agremiações por todo o país. – Os primeiros blocos de carnaval surgiram em 1906, após a popularização do termo devido ao sucesso da coligação “O Bloco” que reuniu senadores e deputados dos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, elegendo Afonso Pena como Presidente da República com 97,9% dos votos.
“Os blocos de carnaval, mesmo demonstrando sua importância pra cidade ao reunir mais de 6 milhões de foliões nas ruas, não tinham até hoje um registro de sua rica história. As pesquisas existentes, apesar de sua relevância, se restringiam a algum tipo característico de bloco, a um período histórico limitado ou se dedicava a alguma agremiação em específico. Por isso, considero que o grande mérito do livro é desbravar esse universo até então desconhecido”, pontua o autor.
Para isso, a obra, lançada pela Editora Multifoco, analisa como a história do carnaval brasileiro foi construída, colocando em diálogo as transformações urbanas, sociais e políticas do país e suas consequências no fazer festivo dos foliões, compreendendo, assim, que a riqueza dos blocos é exatamente sua variedade.
O livro resgata as desconhecidas origens dos blocos; demonstra a relação entre os blocos e as primeiras escolas de samba; recupera a trajetória dos blocos de sujo e dos blocos das repartições públicas; evidencia a influência da moda e do cinema nos blocos dos anos 1950; diferencia blocos de embalo de empolgação, discute a ideia de “retomada do carnaval de rua” nos anos 1980 e ainda contextualiza o projeto de ordenamento da folia contemporânea, abordando questões como a privatização do espaço público, o “xixi na rua” e até mesmo a tentativa de criação de um Blocódromo.
Pesquisa centrada na cidade do Rio de Janeiro, um dos seus principais polos de manifestação, o livro entende os blocos de carnaval como uma brincadeira festiva em constante construção, em diálogo com o poder público, a moda, os meios de comunicação, a cultura popular, a economia e diversos agentes que, a partir dos seus discursos, tentam definir esse conjunto de agremiações que, por sua vez, não cansa de se atualizar.
Curiosidades
– O Cordão da Bola Preta, considerado o mais antigo bloco de carnaval da cidade, surgiu como um clube, dedicando-se aos bailes internos, sendo, inclusive, um crítico do carnaval de rua. Em um dos seus anúncios nos jornais, o Bola dizia que na rua não há diversão, “há barulho” e que o carnaval moderno é dentro de clube. O Cordão da Bola Preta só seria compreendido, de forma consolidada, como um bloco de carnaval a partir dos anos 1960, quando realizava a abertura do carnaval da cidade.
– Os primeiros desfiles do Bafo da Onça se aproveitaram do sucesso da estampa de “oncinha” popularizada anos antes, desde que a atriz americana Jayne Mansfield surgiu usando um biquíni em animal print, em 1955. Para se ter uma ideia, em 1958, o bloco saiu do Catumbi com cerca de 500 sambistas e voltou, ao final do desfile, com mais de mil pessoas, incluindo outras “oncinhas” encontradas pelo caminho.
– Nos anos 1960, a Quarta-Feira de Cinzas era dedicada à “apresentação” do chamado “bloco do O Que É Que Eu Vou Dizer em Casa”, formado pelas pessoas detidas durante o carnaval – grande parte delas por mera embriaguez – cuja soltura, em conjunto, havia se tornado um grande evento. Aguardado por curiosos, que se postavam em frente à Delegacia de Vigilância, este “cortejo” se caracterizava pela saída desses foliões, ainda fantasiados, que tentavam (em sua maioria) fugir das lentes dos fotógrafos e cinegrafistas.
– Até os anos 1980 os blocos de carnaval desfilavam no Sambódromo. Considerado o palco principal do carnaval da cidade (depois da Rua do Ouvidor, da Avenida Rio Branco e da Presidente Vargas), a passarela fixa do carnaval da Marquês de Sapucaí foi inaugurada com o nome oficial de Avenida dos Desfiles, ou seja não só para servir aos sambistas. Nela desfilaram, até 1984, blocos de embalo como o Bafo da Onça e Cacique de Ramos; até 1987 blocos de enredo; e em 1988 foi realizado o primeiro e único concurso oficial dos blocos de rua.
– Questionando a ideia de que bloco só pode tocar samba ou marchinha, os blocos da atualidade (embalados por DJs e diferentes ritmos) guardam como antepassados agremiações que também realizavam experimentações rítmicas, vide os blocos dos anos 1910 que se apresentavam ao som de castanholas, gaitas e trombones, em que se dançavam polcas, mazurcas e tangos, incluindo até mesmo um bloco em que não se cantava, apenas recitava-se poesias.